segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Cultura (do latim cultura, cultivar o solo, cuidar) é um termo com várias acepções, em diferentes níveis de profundidade e diferente especificidade. São práticas e ações sociais que seguem um padrão determinado no espaço. Refere-se a crenças, comportamentos, valores, instituições, regras morais que permeiam e identificam uma sociedade. Explica e dá sentido a cosmologia social, é a identidade própria de um grupo humano em um território e num determinado período.  Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Em um sentido amplo, a cultura pode ser definida como o aspecto da vida social que se relaciona com a produção do saber, arte, folclore, mitologia, costumes, etc., bem como a sua perpetuação pela transmissão de uma geração à outra. Em sociologia, o conceito adquire um sentido diferente do senso comum, que em síntese simboliza tudo aquilo que é aprendido e partilhado pelos indivíduos de um determinado grupo e que confere uma identidade dentro do grupo. Nesse entendimento, não existiriam culturas superiores, nem inferiores, na medida em que a cultura é relativa. Num contexto filosófico, trata-se do conjunto de manifestações humanas que contrastam com a natureza ou comportamento natural, em outras palavras, é um conjunto de respostas para melhor satisfazer as necessidades e os desejos humanos.

O senso comum costuma associá-la à aquisição de conhecimentos e práticas de vida reconhecidas como superiores, ou seja, erudição, numa associação àquilo que é descrito como “alta cultura”, termo empregado apenas no singular, que parte da idéia da não existência de culturas, e sim, apenas uma cultura ideal, à qual os homens indistintamente devem se submeter. Essa noção permite encarar a cultura como sendo também um agente primário de dominação política. Uma breve investigação sobre os rumos da estética, paralela ao estudo da moral sob o olhar da filosofia ocidental, permite localizar as justificativas do ideal inicialmente aristocrático e depois burguês, da arte enquanto cultura superior da classe dominante.

A filosofia grega do Período Clássico tem suas origens na poesia épica de Homero, tomada como marco inicial da filosofia ocidental, a partir da racionalização do divino. Alguns historiadores da filosofia identificam tanto na Ilíada quanto na Odisséia, a condução a uma religiosidade “exterior” que mais convém ao público a que se dirigem as epopéias: a polis aristocrática. Essa religiosidade apolínea permanecerá como uma das linhas fundamentais da religião grega: a de sentido político, que servirá para justificar as tradições e instituições da Cidade-Estado[1]. A figura heróica de Homero caracteriza-se por um ethos próprio, a areté (virtude). A areté é o ideal cavalheiresco que alia a conduta cortesã ao heroísmo guerreiro, sendo mais tarde atenuada por seu uso estritamente moral. Aquele que possui a areté é o nobre, aristoi, palavra que origina o termo aristocrata (que a possui desde o nascimento). Sendo aristoi, decorre que é virtuoso e naturalmente fadado a dominância, ao poder. Homero inaugura uma tradição de ética aristocrática, que fundamentará a ética em Platão e Aristóteles. Tal ética se baseia no desprezo pelas ações relacionadas à sobrevivência do corpo (labor), e o enaltecimento das atividades ligadas à vida pública na polis, e ao ócio. Privilégio esse dado apenas aos cidadãos, que por não se ocuparem do labor, poderiam dedicar-se ao pensamento, que segundo os gregos, é o ato que diferencia o homem do resto dos animais, sendo assim aqueles que não buscam a aletheia (verdade), ou seja, escravos e trabalhadores “livres”, não seriam considerados humanos. Inaugurando a idéia de cultura superior da classe dominante.

É preciso lembrar que a Idade Média fora marcada pela quase extinção do comércio e o fim das grandes cidades, a Igreja Católica fora a única instituição que sobrevivera ao fim do Império Romano, guardando para a si toda a herança cultural da Antiguidade, fundindo tais valores aos valores judaico-cristãos. Um período de misticismo, marcado pelo teocentrismo e por um forte controle exercido pela Igreja. As Cruzadas deram impulso ao renascimento do comércio e o contato com o oriente, que resguardara diversos valores helenísticos, possibilitou o surgimento do chamado Renascimento Cultural. Os valores da Cultura Clássica seriam resgatados e absorvidos no contexto da transição feudo-capitalista pela aristocracia européia.

A partir do século XI, as cidades italianas transformaram-se nos principais centros econômicos e comerciais da Europa, até então a ciência e as artes sofriam um forte controle por parte da Igreja. Do enriquecimento das famílias comerciais, surge à figura do mecenas, homens que enriqueceram ao ponto de desafiarem o controle católico e protegerem as artes e os artistas. Dessa forma, o mecenato passava a constituir um sinal de prestígio, para os novos príncipes italianos legitimarem o seu poder político. Sob a proteção dos patronos, o artista estaria protegido das perseguições da Inquisição, no entanto, encontrava-se submetido aos objetivos de seus patrocinadores. Seguindo o espírito da época, a arte se norteara pela busca da imitação do natural num sentido perfeitamente realista (mimesis), os modelos a serem reproduzidos deveriam configurar as noções de Belo, Bem e Perfeição, equacionando arte e verdade, entendendo como verdade os valores da aristocracia.

Com a queda da aristocracia, também a burguesia se apropria do valor da cultura séria[2], mas ao fazê-lo, acabou por transformá-lo também. A beleza deixa de ser equivalente a verdade, e passa a ser associada ao gosto individual. Nesse contexto, a arte conquista sua autonomia material, e em algumas obras, ideológica. Autonomia material, na medida em que o artista garante a sua sobrevivência com a venda de suas obras, transformando sua produção em mercadoria, e ideológica, na medida em que a arte seguiria suas próprias regras, conquistando um espaço de liberdade a partir da negação da finalidade social dominante, ganhando assim estatuto filosófico, tornando a estética uma disciplina filosófica autônoma.

Mesmo assim, a arte continua sendo encarada como uma atitude intelectual, evoluída, particular da nova classe dominante. Tal significado, esta implícito na percepção popular da arte como expressão de gênios individuais, já que chamar um homem de artista é negar a outro um dom de igual visão. Dessa negação, as próprias leis de mercado se encarregam de agregar valor monetário à obra de arte, o que permite a comercialização da mesma como uma commodity internacional, um investimento seguro para quem pode comprá-la. Colocando em xeque os argumentos daqueles que a encaram como uma categoria universal.

O termo indústria cultural foi cunhado por Adorno e Horkheimer em 1947, devido à inadequação dos termos “entretenimento” e “cultura de massas”, utilizados para traduzir a produção e o consumo de produtos culturais em larga escala, já que poderiam sugerir, de modo equivocado, uma cultura que surgisse espontaneamente das massas, como se fosse a expressão daquilo que é genericamente denominado arte popular. O fato é: dessa forma de arte, a indústria cultural se distingue radicalmente.

A indústria cultural designa a produção de produtos culturais com o intuito de adaptar e integrar seus consumidores ao funcionamento da ordem social vigente, forçando a união da “arte superior” e da “arte inferior”, domínios estes, separados há milênios, e com o prejuízo de ambos (ADORNO, 1962). A “arte superior” é frustrada “de sua seriedade pela especulação sobre o efeito; a inferior perde, através de sua domesticação civilizadora, o elemento de natureza resistente e rude, que lhe era inerente enquanto o controle social não era total” (idem). Difere-se das formas tradicionais de “entretenimento”, por se tratar de um sistema integrado, centralizando a produção, a distribuição e o consumo da cultura, integrando- a as esferas de reprodução material da sociedade e ao funcionamento do sistema capitalista como um todo. Sendo uma forma de diminuição do potencial crítico e de dominação da consciência das pessoas. O consumo dos produtos da indústria cultural não é uma escolha livre do consumidor, mas, em grande medida, determinado na fase de fabricação dos produtos (GATTI, Luciano Ferreira, ”Theodor W Adorno e a Indústria Cultural”, Revista Mente, Cérebro e Filosofia n° 7, pg. 27, Duetto, SP, 2008).

Brecht e Suhrkamp advertiam que as mercadorias culturais da indústria se orientam “segundo o princípio de sua comercialização e não segundo seu próprio conteúdo e sua figuração adequada. Toda a práxis da indústria cultural transfere, sem mais, a motivação do lucro às criações espirituais.” (ADORNO, 1962). A autonomia das obras de arte nunca existiu de maneira plena, e sempre fora marcada por conexões de efeito, e se vê abolida pela indústria cultural. Embora os poderes políticos, Estado e municipalidades, tenham herdado do absolutismo uma parte das instituições produtoras de cultura[3], preservando pra elas uma independência parcial das relações de dominação vigentes no mercado, fator que resguardou a arte em sua fase tardia contra o veredicto da oferta e da procura, somente a obrigação de se inserir incessantemente na vida dos negócios como um especialista estético, impôs um freio definitivo ao artista. “A cultura que, de acordo com seu próprio sentido, não somente obedecia aos homens, mas também sempre protestava contra a condição esclerosada na qual eles vivem, e nisso lhes faria honra; essa cultura, por sua assimilação total aos homens, torna-se integrada a essa condição esclerosada; assim ela avilta os homens ainda uma vez. As produções do espírito no estilo da indústria cultural não são mais também mercadorias, mas o são integralmente” (idem). Tal deslocamento é tão grande que traz consigo alguns fenômenos novos. Afinal, a indústria cultural não visa mais somente aos interesses do lucro, dos quais partiu, tais lucros objetivam-se em sua própria ideologia e às vezes se emanciparam da coação de vender suas mercadorias, que devem ser absorvidas de qualquer maneira. “A indústria cultural se transforma em “public relations”, a saber, a simples fabricação de um “good will”, sem relação, com os produtores ou objetos de venda particulares. Vai se procurar o cliente para lhe vender um consentimento total e não crítico, faz se reclame para o mundo, assim como cada produto da indústria cultural é seu próprio reclame”(idem)

A indústria cultural possui sua ontologia, “quadro de categorias fundamentais rigidamente conservadas”, como por exemplo, o romance comercial inglês do fim do século XVII e início do XVIII. O que se apresenta como progresso nesse contexto, essa insistência pelo novo, nada mais é que uma maquiagem para um esqueleto que sofreu tão poucas mudanças como na própria motivação do lucro desde que ela ganhou ascendência sobre a cultura.

Não se deve tomar literalmente o termo indústria, porque não diz respeito ao processo produtivo em sentido restrito, ele diz respeito à padronização - como, por exemplo, o western, conhecido de qualquer freqüentador de cinema, - e a racionalização das técnicas de distribuição. Enquanto o processo de produção do cinema, que é um procedimento técnico que exige a divisão social do trabalho, o emprego de máquinas e a separação dos trabalhadores dos meios de produção (o conflito entre artistas e detentores do poder decisório), a indústria cultural ainda procura conservar as formas individuais de produção. Em outras palavras, a indústria cultural vale-se do “individualismo artístico” e da “criatividade individual” para explorar comercialmente o seu estoque de “astros e estrelas”. “Cada produto apresenta-se como individual; a individualidade mesma contribui para o fortalecimento da ideologia, na medida em que se desperta a ilusão de que o que é coisificado e mediatizado é um refúgio de imediatismo e de vida.” (ADORNO)

Em relação aos processos produtivos, a indústria cultural se caracteriza pela racionalização dos procedimentos de planejamento e pela conseqüentemente estandardização dos produtos. O planejamento dá se através da antecipação das regras à produção, e pela primazia do todo em relação ao individual, onde o individual é apenas mais um elemento do todo. Resultando na transferência da responsabilidade de elaboração do artista para administradores, técnicos e diretores, julgamento onde não prevalecem as qualidades artísticas, mas sim o lucro e o sucesso de mercado. A determinação das tendências de produção e produção em larga escala, entra em contraste com a elaboração da obra de arte, que é única em sua singularidade. Os controladores elaboraram uma linguagem que consiste em efeitos de fácil assimilação imediata, excluindo elementos que contestem ou fujam da fórmula, através da criação de um repertório de gestos prontamente reconhecíveis pelo consumidor. Toda a divulgação também é racionalizada, na medida em que cinema, rádio, televisão e imprensa se movimentam em conjunto para a divulgação de seus produtos. A mobilização de recursos técnicos e financeiros leva a aproximação dos interesses dos produtores culturais de outros setores que os patrocinam.

Diversão e entretenimento não são invenções do capitalismo tardio. A “arte leve” além de funcionar como antídoto contra a seriedade da arte autônoma, representava também o “abandono descontraído à multiplicidade das associações e ao absurdo feliz”, porém esses “elementos positivos” são neutralizados pela racionalização da indústria cultural, onde a descontração e o absurdo transformam-se em escapismo e renúncia a coerência, já que a indústria cultural transforma a diversão em ausência de esforço de reflexão por parte do consumidor. “O mundo inteiro é forçado a passar pelo filtro da indústria cultural. A velha experiência do espectador de cinema, que percebe a rua como um prolongamento do filme que acabou de ver, porque este pretende ele próprio reproduzir o mundo da percepção quotidiana, tornou-se a norma da produção. Quanto maior a perfeição com que suas técnicas duplicam os objetos empíricos, mais fácil se torna hoje obter a ilusão de que o mundo exterior é o prolongamento sem ruptura do mundo que se descobre no filme.” (ADORNO E HORKHEIMER,1947, Dialética do Esclarecimento, pg. 118).

“A indústria cultural desenvolveu-se com o predomínio que o efeito, a performance tangível e o detalhe técnico alcançaram sobre a obra, que era outrora o veículo da Idéia e com essa foi liquidada. Emancipando-se, o detalhe tornara-se rebelde e, do romantismo ao expressionismo, afirmara-se como expressão indômita, como veículo do protesto contra a organização. O efeito harmônico isolado havia obliterado, na música, a consciência do todo formal; a cor particular na pintura, a composição pictórica; a penetração psicológica no romance, a arquitetura. A tudo isso deu fim a indústria cultural mediante a totalidade.” (idem)



[1] Não é preciso lembrar que essa função da religião instituída foi mantida até hoje. Cf. BAKUNIN, Mikhail (2000). Deus e o Estado. São Paulo: Imaginário.

[2] Termo criado por Henry Flynt, no começo dos anos 60, para designar a alta cultura da classe dominante.

[3] Sistema educativo, teatros, orquestras, etc.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008






valeu galera, sem vcs isso não seria possível.


domingo, 19 de outubro de 2008

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Terror e Poesia








No decorrer dos ultimos anos, ocorreram diversos "acontecimentos globais", a morte da princesa Diana, a morte do piloto Ayrton Senna, as Olimpíadas, a Copa do Mundo, além da sempre presente violência. No entanto nenhum desses acontecimentos conseguiu atingir a dimensão simbólica dos atentados de 11/09/2001, em especial a queda das torres do World Trade Center.
Para Baudrillard, os atentados puseram fim a estagnação dos anos 90, que era definida pelo escritor argentino Macedônio Fernandes como a "greve dos acontecimentos", com um ato que na sua opinião superara todos os outros, o que o levou a mergulhar fundo no chamado "espírito do terrorismo".
Quanto mais forte é um sistema, maior é sua vontade de se autodestruir. A medida em que sua organização em rede se torna mais explêndida, mais vulnerável ela é em um único ponto, haja vista o temor que o vírus I Love You, criado por um franzino filipino, causou em todas as redes domésticas do mundo inteiro. É a própria crueldade dessa lógica mundializante que cria as condições ideais para essa réplica brutal. Sendo o terror uma imagem de nós mesmos refletida num espelho que temos recusa em encarar.
As Torres Gêmeas eram um símbolo da vitória do capitalismo financeiro, na medida em que puseram um fim a verticalidade competitiva que moldou o espaço urbano da cidade de Nova Iorque. Em 1973, data de sua inauguração, obelisco e a pirâmide, cederam espaço para uma arquitetura que refletia o grafismo estatístico do mundo financeiro, pelo fato de serem duas, o que acarreta o fim da referência original, essas lâminas cegas e de estética duvidosa, puseram um fim na concorrência pelos céus de Manhatan, marco de um sistema digital e contábil, símbolo das grandes redes e dos monopólios globais. Refletindo na sua arquitetura amplamente reproduzida no mundo todo, a violência e a ferocidade do mercado financeiro global.
Sua queda provocou no mundo inteiro um misto de fascínio e condenação moral, tal fascínio brota da alergia, felizmente universal, a qualquer ordem definitiva, e as duas torres, justamente em sua geminação, encarnavam essa ordem definitiva, dando aos terroristas a vantagem dessa cumplicidade que é moralmente inconfessável.
Foi o próprio sistema quem criou as condições para esta réplica brutal, o desafio imposto pelo excesso de poder exigiu como resposta um ato onde qualquer troca é impossível, forçando aquele monumento curvar-se diante de seu espelho e desaparecer no pó.
"O terrorismo é o ato que restitui uma singularidade irredutível a um sistema de trocas generalizado"(BAUDRILLARD). " Isto já se quer visa transformar o mundo, visa antes (como no tempo das heresias) radicalizá-lo pelo sacrifício, enquanto o sistema visa fazê-lo pela força.
Diferente do terrorismo praticado até então, que era essencialmente uma arma de pobres, onde o suicídio dos guerrilheiros em nada afetava o espírito do sistema, o ataque de 11/09 foi idealizado por experts, peritos em economia, investidores, aviadores, conhecedores do impacto que a imagem criada provocaria no mundo todo. Disfarçados, quase inofencivos, desviando a mira das maiores armas de seus inimigos. Trata-se de um agente viral, presente em todos os lados, diluídos, sombra refletida, um agente duplo inserido no coração da realidade que combate, uma fratura exposta do sistema dominante, "onda de choque de uma reversão silenciosa". 
O espírito do terrorismo consiste em: "Não atacar nunca o sistema em termos de relação de forças. Isto é o imaginário (revolucionário) imposto pelo próprio sistema, que não sobrevive senão por obrigar incessantemente aqueles que o atacam a baterem-se no terreno da realidade, que é pra sempre seu. Mas deslocar a luta para a esfera simbólica, onde a regra é a do desafio, da reversão, do sobrelanço. De tal modo que a morte não possa responder-se senão por uma morte igual ou superior. Desafiar o sistema com um dom ao qual ele não pode responder senão com a sua própria morte e o seu próprio desmoronamento." (Baudrillard - O Espírito do Terrorismo, Campo das Letras, 2002). "Acontecimento absoluto e sem apelo". Em seu Réquiem para as Torres Gêmeas diz:
"A utopia situacionista de uma equivalência da arte e da vida era substancialmente terrorista. Terrorista é o ponto extremo em que a radicalidade da perfomance artística, ou da idéia, entra na própria coisa, na escrita automática da realidade, numa projeção poética de situação. Mas se a arte pode sonhar em ser esse acontecimento material que absorve qualquer representação possível, está muito longe disso, e nada da ordem da imaginação ou da representação pode igualar ou comparar-se, hoje, com um acontecimento desses." Estes textos foram escritos ainda sob o efeito do baque daquele fatídico dia, a validade desse dito acontecimento absoluto, tem sido bastante contestada, devido aos furos nos laudos, e diversas outras informações contraditórias. Mas Baudrillard se esquecera de sete de agosto de 1974, o crime do século, o mesmo alvo, ao invés de uma implosão, poesia.
Ao atravessar numa corda bamba, o vão entre as recém-inauguradas Torres Gêmeas, Philippe Petit,cometeu o crime artístico do século. Foram tres anos de planejamento, incluindo fotos tiradas de um helicóptero alugado, a conquista da amizade de um executivo que trabalhava no prédio, fingir ser um correspondente de uma emissora francesa, para ir até o topo com o sindico do conjunto e batalhar o seu sustento como malabarista nos cruzamentos da Big Apple. Petit desafiou todos os seus limites, não só ao andar numa corda bamba a 417 metros de altura, mas também ao driblar a segurança de um dos prédios mais vigiados do mundo, impulsionado pelo desejo de tocar os céus. Naquela manhã ensolarada de agosto, curtiu o momento por 45 minutos, sua namorada diria que aquilo era a coisa mais linda que havia visto na vida, as autoridades, atonitas, apenas o observaram deitar na corda, desafiar a gravidade, curtir um momento único, simbolo máximo da opressão se dobrou diante da poesia daquela manhã. Este sim, um acontecimento absoluto e sem apelo. 
Terrorismo poético pode ser entendido como um conjunto de ações não-violentas em larga escala que podem ter um impacto psicológico comparável ao poder de um ataque terrorista, configurando-se num ato de mudança de consciência. Onde o "choque estético tem de ser uma emoção tão forte quanto o terror - profunda repugnância, tesão sexual, temor supersticioso, súbitas revelações intuitivas, angústia dadáista - (...)se não mudar a vida de alguém (além do próprio artista) ele falhou." 
"Uma primorosa sedução praticada não em busca apenas da satisfação mútua, mas também como um ato consciente de uma vida deliberadamente bela - talvez isso seja o TP em seu mais elevado grau." (Hakim Bey)
Os terrosristas-poetas comportam-se como trapaceiros, confiantes, cujos objetivos não se resumem em dinheiro, seu objetivo é a TRANSFORMAÇÃO.
Suba na corda bamba, invente um nome falso, seja uma lenda, o melhor TP é contra a lei, não vacile, não seja pego. "Arte como crime, o crime como arte."



  
 








terça-feira, 9 de setembro de 2008

VI Semana de Arquitetura e Urbanismo da UNESP- Bauru - 13 a 17/10/2008

Oficina: Terrorismo Poético e Outros Crimes Exemplares.

I - Dia

manhã: 
  • programa do Bureu de Urbanismo Unitário:
- Psicogeografia.
- Mapas Afetivos.
  • terrorismo poético:
- situação construída...
- linhas de fuga...
- máquinas de guerra...
- zonas autônomas temporárias...
tarde:
  • bombas:
- sementes...
- poemas...
- o que der na telha...
II dia:
  • deriva...
  • guerrilha poética...
  • Jogos...
III dia:
  • fitando o vazio...
  • mergulhando nele...
  • metamorfoseando...
* mais detalhes e eclarecimentos no decorrer desses dias...

terça-feira, 2 de setembro de 2008

ENTREVISTA COM HAKIM BEY NA HIGH TIMES MAGAZINE
Zero Boy

Maske, 2.51k

Muito antes dele se tornar uma lenda “cult”, eu ouvi pela primeira vez o nome do misterioso e esquivo Hakim Bey quando girava o dial do rádio em Nova York. Ele foi mencionado em um programa da WBAI FM chamado “A Cruzada Moura Ortodoxa”. Mas logo, amigos estavam falando em surdina sobre suas buscas à Zona Autônoma Temporária. Intrigado, eu procurei pelo clássico underground de Hakim, T.A.Z., A Zona Autônoma Temporária: Anarquismo Ontológico e Terrorismo Poético (Autonomedia, po Box 568, Brooklyn, ny 11211). Eu o achei numa pequena livraria esotérica que tinha desde trabalhos de Emma Goldman até Aleister Crowley. Eu comecei a perguntar sobre a Sociedade do Anarquismo Ontológico e sobre esse enigmático Hakim Bey. Ninguém sabia como chegar ao efêmero Hakim. Ligar para os editores dele me deixou ainda mais frustrado.

Hakim Bey também lançou um CD declamado com música de Bill Laswell pelo selo Axiom, chamado também de TAZ. Então eu os contatei também - inutilmente. Então um dia eu acho um bilhete na minha cama dizendo para vir à Rua Mott às 9 da noite para uma entrevista. Como isso veio parar aí? Na Rua Mott, um carro anônimo encosta e me leva a um obscuro restaurante num porão em Chinatown, onde uma cabine privada com cortinas está separada, com um pequeno narguilé e um prato cheio de Bolas de Templo Nepalesas(1). Sou convidado a entrar.

HIGH TIMES: Hakim, de onde você é?

HAKIM BEY: Bem, a informação padrão (que é tudo que eu falo) é que eu era um poeta da corte de um principado sem nome no norte da Índia, que eu fui preso na Inglaterra por um atentado anarquista a bomba e que eu vivo em Pine Barrens, Nova Jersey, em um trailer da Airstream(2). Quando eu venho a Nova York eu fico num hotel em Chinatown.

HT: O que é a Zona Autônoma Temporária?

HB: A Zona Autônoma Temporária é uma idéia que algumas pessoas acham que eu criei, mas eu não acho que tenha criado ela. Eu só acho que eu pus um nome esperto em algo que já estava acontecendo: a inevitável tendência dos indivíduos de se juntarem em grupos para buscarem liberdade. E não terem que esperar por ela até que chegue algum futuro utópico abstrato e pós-revolucionário.

A questão é: como os indivíduos em grupos maximizam a liberdade sob as situações dos dias de hoje, no mundo real? Eu não estou perguntando como nós gostaríamos que o mundo fosse, nem naquilo em que nós estamos querendo transformar o mundo, mas o que podemos fazer aqui e agora. Quando falamos sobre uma Zona Autônoma Temporária, estamos falando em como um grupo, uma coagulação voluntária de pessoas afins não-hierarquizada, pode maximizar a liberdade por eles mesmos numa sociedade atual. Organização para a maximização de atividades prazeirosas sem controle de hierarquias opressivas.

Existem pontos na vida de todos que as hierarquias opressivas invadem numa regularidade quase diária; você pode falar sobre educação compulsória, ou trabalho. Você é forçado a ganhar a vida, e o trabalho por si só é organizado como uma hierarquia opressiva. Então a maioria das pessoas, todos os dias, tem que tolerar a hierarquia opressiva do trabalho alienado.

Por essa razão, criar uma Zona Autônoma Temporária significa fazer algo real sobre essas hierarquias reais e opressivas – não somente declarar nossa antipatia teórica a essas instituições. Você vê a diferença que eu coloco aqui?

No aumento da popularidade do livro, muitas pessoas se confundiram com esse termo e usaram ele como um rótulo para todo o tipo de coisa que ele realmente não é. Isso é inevitável, uma vez que o próprio vírus da frase está solto na rede (para usar metáforas de computadores). Se as pessoas usam erroneamente ele ou não isso não é tão importante, porque o significado está incrustado no termo. É como um vírus verbal. Ele diz o que significa.

HT: Uma Zona Autônoma Temporária necessariamente se abstém do uso do dinheiro?

HB: Isso é difícil em uma situação real, mas pode acontecer. O Rainbow Gathering (3), por exemplo, se abstém do uso do dinheiro. Isso é quase que uma garantia de um grau muito maior de autonomia temporária para as pessoas que estão participando.

Eles na realidade aumentam seu prazer saindo fora da economia de dinheiro/mercadorias.

HT: A imprensa ligou o fenômeno TAZ ao movimento cyberpunk. Você acha que a Internet é uma Zona Autônoma Temporária?

HB: Não. Um mal entendido muito peculiar veio à tona. A revista Time fez uma matéria sobre o ciberespaço que me citou erroneamente - o que me deixou particularmente feliz. Se a Time entendesse o que eu estava falando, eu seria forçado a reestruturar toda minha filosofia, ou talvez desaparecer pra sempre em desgraça.

Eles diziam que o ciberespaço era uma Zona Autônoma, e eu não concordo. Enfaticamente não concordo. Eu acho que a liberdade inclui o corpo. Se o corpo está em um estado de alienação, então a liberdade não é completa em nenhum sentido. O Ciberespaço é um espaço sem corpo. Ele é, de fato, um espaço abstrato e conceitual. Não existe cheiro nele, nem gosto, nem sentimento e nem sexo. Se qualquer uma dessas coisas existe lá, são apenas simulacros dessas coisas e não elas mesmas.

A única coisa que a Internet ou o cIberespaço podem ter com relação à Zona Autônoma Temporária é que eles são instrumentos ou “armamento” para alcançar a liberdade. Então é importante trabalhar para proteger as liberdades de expressão e comunicação que estão abertas neste exato momento pela Internet contra o FBI e Clinton e a “Infobahn” (um bom termo em alemão para designar a auto-estrada da informação). Cuidado para não ser atropelado na Infobahn! Comunicando-se por uma BBS(4), um grupo pode planejar um festival de maneira muito mais eficaz, alguma coisa como um Rainbow Gathering, estruturado nas chances para maximizar o potencial para o surgimento de uma TAZ real. A Internet também pode ser usada para montar uma rede econômica alternativa genuína. Trocas e permutas trilhadas na Internet em comunicações privilegiadas.

HT: Você pode explicar o “Terrorismo Poético”?

HB: Por terrorismo poético eu entendo ações não-violentas em larga escala que podem ter um impacto psicológico comparável ao poder de um ato terrorista - com a diferença de que o ato é de mudança de consciência. Digamos que você tem um grupo de atores de rua. Se você chamar o que você está fazendo de “performance de rua”, você já criou uma divisão entre o artista e a audiência, e você alienou de si mesmo qualquer possibilidade de colidir diretamente nas vidas diárias da audiência. Mas se você pregar uma peça, criar um incidente, criar uma situação, pode ser possível persuadir as pessoas a participar e a maximizar sua liberdade. É uma estranha mistura de ação clandestina e mentira (que é a essência da arte) com uma técnica de penetração psicológica de aumento da liberdade, tanto no nível individual quanto no social.


HT: Você pode fazer algumas sugestões especial ao leitor da HIGH TIMES para criar uma TAZ?

HB: Ok, tudo bem. Eu gostaria de dizer isso ao movimento canabista, e, em um nível mais amplo, eu gostaria de direcionar isto ao movimento libertário em geral, que é um aliado próximo, cruza e tem áreas de contingência com o movimento canabista.

Se os Libertários tivessem gasto os últimos quinze anos organizando redes econômicas alternativas para potencializar a emergência de uma Zona Autônoma Temporária e levá-la rumo a uma Zona Autônoma Permanente, ao invés de jogar o jogo fútil das políticas de terceiros, que é uma posição fracassada desde o início; se o movimento canabista tivesse colocado sua energia nos últimos quinze anos na organização de redes econômicas alternativas, não necessariamente baseadas em trocas “criminosas” de dinheiro por maconha mas nas necessidades e possibilidades básicas da vida real; se toda essa energia fosse direcionada nesse sentido, ao invés do que parece para mim uma quimera total, um fantasma totalmente abstrato chamado “poder político democrático legislativo” - então eu penso que estaríamos há muito no caminho claro da mudança revolucionária nessa sociedade.

Nessas circunstâncias, toda essa boa intenção e grande energia foi mal direcionada em um jogo - um jogo em que a autoridade cria as regras, e nas quais “eles” criaram as regras para que pessoas como eu e você não possam ganhar poder dentro desse sistema.

Agora isto é uma crítica anarquista que eu estou fazendo, com os motivos mais camaradas possíveis. Eu acho que é uma tragédia essa energia ter sido mal direcionada. Eu não acho que é tarde demais para acordar e ver o que está na verdade acontecendo(5) aqui.

Outro ponto que eu gostaria de falar é que a HIGH TIMES foi particularmente culpável durante a última eleição, quando conclamou seus leitores (incluindo uma grande porcentagem de usuários de maconha nesse país) a votar naquele Clinton filho da puta, baseado em um rumor extremamente suspeito: de que Al Gore, um conhecido mentiroso, hipócrita e embusteiro, cochichou pra alguns ativistas da maconha que ele estava do lado deles. E por isso, presumivelmente, milhares, se não milhões, de fumantes de maconha saíram e votaram em um outro bando de filhos da puta, se esquecendo toda a sabedoria do antigo slogan anarquista, “nunca vote, isso só encoraja os bastardos.”

Eu vou fazer uma aposta agora. Eu como a edição da revista em que isto será impresso se, sob a administração Clinton, existirem quaisquer melhoras na lei relacionada ao uso da cannabis por prazer. Pode haver um pequeno abrandamento no uso da maconha medicinal ou comercial. Mas não haverá abrandamento - de fato, somente haverá uma maior regulação - no uso da erva por prazer. Ok? E se isso não for verdade, eu como a porra da revista com uma merda de um leite e um açúcar.

HT: Isso seria um ato de terrorismo poético?

HB: Heh, heh.

HT: Você acha que o movimento canabista é contraproducente em alguns aspectos?

HB: Antes de qualquer crítica, eu preciso enfatizar que eu pertenço a uma religião em que a maconha é um sacramento, e eu sou um defensor vitalício de ações pró-maconha. Eu uso o termo “ação” ao invés de “legalização” por uma razão muito específica, na qual eu vou chegar. Daí eu ofereço crítica em um espírito construtivo. Eu quero que isso fique bem claro, como Nixon costumava dizer.

Nos anos em que vêm existindo um movimento pela legalização da maconha, todas as leis desse país ficaram piores e mais opressivas. No tempo em que vêm existindo um movimento de legalização da maconha, o preço da erva ficou proibitivamente caro por causa da Guerra às Drogas. Existe aí uma relação direta entre a Guerra às Drogas e o movimento pela legalização da maconha? Provavelmente não muita. Porém, tagarelar tudo todo o tempo e fazer tudo aberto, deixando as estatísticas e listas de discussões disponíveis para as agências de inteligência e outras não é uma tática boa quando você está na verdade lidando com uma substância ilegal.

Eu acho que temos um complexo de mártir nessa situação. Existem pessoas que querem confrontamento contra uma projeção psicológica do que eles acham que é a “autoridade”. Em outras palavras, contra quem é relativo à autoridade de um jeito autoritário. Simplesmente por desafiarem abertamente essa autoridade, eles estão se definindo como criminosos e vítimas do estado.

HT: Você acha que eles poderiam usar um pouco de terrorismo poético?

HB: Eu acho que eles poderiam usar um pouco de clandestinidade sensata e um pouco do senso do terrorismo poético, sim.

HT: Você escreveu extensamente sobre os tongs(6), as sociedades secretas Chinesas. Você diria que a economia underground da maconha é organizada de forma semelhante aos tongs?

HB: Absolutamente, é organizada como uma soma, como uma... bem, não é organizada como uma soma de tongs, e é isso que é o problema. O ponto é que um tong é uma sociedade secreta. E isto, novamente, é algo que não é somente uma fantasia; é algo real. Um grupo de amigos com afinidades que se junta para intensificar seu prazer e liberdade por meios que não sejam reconhecidos como legais pela sociedade criou inconscientemente uma tong. O que eu acho que eles poderiam fazer é conscientemente criar uma tong. O que nós precisamos aqui é uma estética e uma tradição de sociedades clandestinas não-hierárquicas.

Como nós organizamos verdadeiras redes secretas de permuta? Mas também, como nós criamos uma poética desta situação, como nós fazemos disto algo que funcione não somente num nível econômico prático, mas também num nível imaginário, onde os corações das pessoas estão comprometidos?

HT: Uma comunidade.

HB: Eu iria além, ao usar o termo de Paul Goodman, communitas, para mostrar que nós estamos falando sobre algo que é mais que um arranjo a esmo, mas realmente um objetivo pela qual nós estamos nos esforçando.

Eu vejo a Zona Autônoma Temporária como o florescimento temporário do sucesso dessas redes. O que nós estamos esperando é que as estruturas não hierárquicas atuais maximizem seu potencial para o surgimento de uma TAZ.

Vamos falar sobre as redes como uma espécie de subsolo rico em micélios que são por si só o corpo verdadeiro da planta. E ele pode se espalhar por milhas, como você sabe. Os cogumelos que aparecem, os frutos - eles são como uma Zona Autônoma Temporária, esses são as florescências da rede, se eu consigo fazer aqui minha metáfora botânica.

Uma das formas mais óbvias de florescimento é o festival: a rave, o Rainbow Gathering, os festivais Zippies(7) e coisas como o festival Burning Man(8) em Nevada - esses tipos de festivais espontâneos, não regulados, não mercantilizados, que aparecem.

HT: Mas talvez eles tenham vidas, “vidas de prateleira”(9) - só uma certa quantidade de tempo quando eles podem criar e florescer.

HB: Existem algumas coisas que são inerentemente temporárias. E existem outra coisas que são temporárias somente porque não somos fortes o suficiente para fazê-las permanentes. Digamos que você se instala por alguns meses em um lugar bonito perto de uma floresta, na beira de um lago, no verão, com alguns amigos e você tem uma TAZ verdadeira. Erotismo e beleza natural e liberdade pra correr pelado por aí e fumar maconha ou fazer o que você quiser. Mas como isto tudo é movido pelo dinheiro que as pessoas têm que fazer no mercado onde elas vendem o trabalho, isto pode durar somente um certo tempo. Nós gostaríamos de fazer isto durar para sempre, transformado a TAZ em uma PAZ, uma Zona Autônoma Permanente (Permanent Autonomous Zone). Nós não temos o poder econômico para fazer isto. É temporário somente porque nos falta o poder para fazermos isto mais permanente.

Outras coisas são claramente temporárias, e devem ser apreciadas pela sua temporalidade. Quando a essência saiu delas nós devemos perceber isto, e deixar esta forma em busca de outras formas. Então uma certa quantidade do que vem sendo chamado de “trabalho de flutuação” é necessário. Você tem que estar sintonizado com onde a liberdade e o prazer estão sendo potencializados e onde não estão, para que você possa espontaneamente se manter flutuando e ficar à frente desse fenômeno. Isso é exatamente o que hordas de pessoas estão fazendo por aí: velhos camaradas em rv´s(10), caras novos viajando clandestinamente, está tudo acontecendo. Não estou descrevendo um esquema utópico, é o que está acontecendo de qualquer jeito. Tenhamos consciência disso. Vamos perceber que isso é um verdadeiro valor, porque faz algo por nossas vidas, diferentemente de todo essa jogatina política estúpida.

Nós somos constantemente seduzidos a colocar nossas forças e nosso amor e nossa criatividade em objetivos que são imediatamente reocupáveis e cooptáveis e mercantilizáveis por “eles”. Isso devia parar.

HT: Eu vejo pessoas tendo problemas para comunicar-se com outras porque elas estão acostumadas a se falar pela televisão. Então, quanto você está trabalhando em uma comunidade, o primeiro passo para criar uma TAZ seria a comunicação.

HB: Absolutamente. As pessoas estão alienadas pela mídia. Isso é algo que tem que ser repetido constantemente. Quanto mais você se relaciona com os meios, menos você se relaciona com outros seres humanos em sua proximidade física. Novamente, isso não é uma grande teoria, isto é algo que simplesmente está acontecendo. Você gasta mais tempo vendo TV, você gasta menos tempo se relacionando com seus amigos. E quando isto se espalha em nível social, você começa a ver algumas coisas muito estranhas ocorrendo. A corrente tem mais força que qualquer participação individual na corrente. Existe uma sinergia negativa, um efeito de realimentação negativa por meio do qual sua alienação de outras pessoas está sendo causada por televisões e rádios e filmes e jornais e livros. Eu certamente não isento os impressos dessa crítica. E subitamente você descobre que não é somente uma questão de alienação, é uma questão de miserabilidade. Essa separação de você da realidade física está fazendo você miserável.

Muitas pessoas chegaram a esse ponto. Eles não sabem o que fazer porque nós não estamos dando a eles uma direção. Digo, radicais fumantes de maconha não estão dando a eles uma alternativa clara e realista, mas ao invés disso estão sonhando acordados com várias merdas de New Age e estilo de vida.

HT: Onde as pessoas podem achar Zonas Autônomas Temporárias às quais você estaria disposto a dizer quando e onde encontrar?

HB: Eu não posso - porque elas não existem precisamente em mapas com coordenadas cartesianas. Existem outras dimensões que não os mapas onde as Zonas Autônomas Temporárias podem ser achadas. Eu gosto de metaforizar estas dimensões como dimensões fractais, o que traz toda a questão de caos e complexidade. E uma das razões pelas quais eu não posso te dar nenhum indicativo é porque essa é uma situação fractal carregada de complexidade. A qualquer momento uma TAZ pode ocorrer. Em um nível mínimo, um jantar na casa de alguém pode repentinamente evoluir em uma TAZ. Não qualquer jantar, mas o potencial está lá porque é organizado de uma maneira não hierárquica, para convivência. E, em um nível máximo, você teve Zonas Autônomas Temporárias que duraram muito mais, onde a festa na realidade continuou por alguns anos. Quando estamos falando sobre a Zona Autônoma Temporária, per se, como nodos realmente intensos de consciência e ação, é possível que os seres humanos não possam aguentar muito disso. Talvez dezoito meses ou dois anos de festa contínua seja tudo que alguém pode aguentar.

HT: Bem, eu conheço algumas pessoas...

HB: Claro! Mas nós podemos falar de Zonas Autônomas Permanentes, você sabe, o que é um conceito diferente.

HT: Você chamaria o Rainbow Gathering de Zona Autônoma Permanente?

HB: Eu chamo ele de Zona Autônoma Periódica, o que é ainda outra variação dessa idéia. Existem certas Zonas Autônomas que você não pode manter o tempo todo, mas que você pode realizar com uma certa freqüência constante, e os festivais anuais são os exemplos. O que nós temos que fazer é evitar a mercantilização. Preciso dizer algo mais desse assunto? Ok?

O festival é um momento intenso, mas periódico. É momentâneo, mas periódico. Assim como no Rainbow, não é realmente necessário ser dono da propriedade, como eles inteligentemente descobriram. Qualquer grupo de pessoas na América pode fazer isso. Você não precisa se juntar às tribos Rainbow e seguir seu estilo de vida (que eu particularmente não acho atrativo). Você só faz um encontro em uma floresta nacional e monta sua tenda fora da linha de visão, ou você pega um lugar onde tenham poucos ursos.

No festival Burning Man, o guarda florestal mais próximo está a 75 milhas de distância, e eles converteram ele a um amigo e defensor do festival, de qualquer jeito. É organizado por alguns artistas da Califórnia que vão para a pior parte do deserto de Nevada, só um mar de areia preta até onde a vista alcança, e eles fazem uma estátua gigantesca de um homem de vime, então no último dia do festival eles ateiam fogo a ele e todo mundo bebe um monte de cerveja e vê ele queimar. É um tremendo sucesso e está sendo repetido sempre com uma periodicidade anual. As pessoas amam isto. Um jornal é impresso no lugar, uma mini estação de rádio FM é montada cada ano e todos os tipos diferentes de pessoas vêm, de caras que moram isolados em rvs a ciclistasa hippies, o pessoal “flower” e o pessoal Rainbow e os hobos(11) e artistas da Califórnia. E todo mundo se diverte muito, e então eles arrumam as malas e vão embora e esse é o fim daquilo, e o guarda florestal não incomoda eles porque está a 75 milhas de distância e ele gosta daquilo de qualquer jeito porque eles deixam o lugar limpo. Então qualquer um pode fazer isso. Você não precisa esperar pela permissão de alguma autoridade tribal.

HT: Criar uma TAZ é quase como criar o seu próprio espaço autônomo livre em você mesmo.

HB: Eu fico repetindo a frase “maximize o potencial para o aparecimento”. Eu sei que é uma frase meio grotesca e complicada, mas ela precisa ser sempre inserida em qualquer frase que nós falemos aqui. Você não pode declarar uma TAZ. Ou, se você pode, você é um mágico muito mais eficiente do que eu. Você simplesmente não pode decidir ter uma TAZ. Uma TAZ é algo que acontece espontaneamente. Quando de repente você diz, uau, sabe, tem N pessoas aqui, mas tem N mais N energia, excitação, prazer, liberdade, consciência. Certo? Esse momento de sinergia de corrente cruzada acontece quando um grupo de pessoas está tendo algo mais de uma situação que a soma do que os indivíduos estão colocando nisto. Você não pode prever isto. Tudo o que você pode fazer é maximizar o potencial para o aparecimento.

Glossário

1. Bolas de Templo Nepalesas (Nepalese Temple Balls) - nome dado para pelotas de haxixe.

2. Airstream - Tradicional marca americana de trailers e motor-homes, pertencente à Thor Industries. Seu website é www.airstream-rv.com.

3. Rainbow Gatherings - festival-encontro dos participantes da “Família Arco-Íris da Luz Viva”(Rainbow Family of Living Light), que na realidade não é uma organização, mas diferentes pessoas que pregam a construção de pequenas comunidades, não violência, estilo de vida alternativo, Paz e Amor, e tradições indígenas americanas. Esse encontro, que acontece anualmente, tem por objetivo rezar pela paz no planeta.

4. BBS - Bulletin Board System, um termo de informática que designa uma base de dados de mensagens acessível pela Internet, ou melhor ainda, um mural de recados eletrônico.

5. No original, “I don’t think that it’s too late to wake up and smell the coffee here.”

6. Tong - sociedade secreta chinesa, do cantonês tong, “assembléia de todos”.

7. Festival Zippy - encontro das pessoas da cultura zippie - que se definem, em parte, como hippies tecnológicos, que acreditam em funções religiosas na tecnologia. O nome vem de hippies com zip. Retirado de http://www.fiu.edu/~mizrachs/Zippies.html

8. Festival Burning Man - festival que reúne anualmente cerca de vinte e cinco mil pessoas, e envolve música, arte e comunidade. Retirado de http://www.burningman.com/

9. Vida de Prateleira - extensão de tempo que um produto, especialmente alimento, pode permanecer na prateleira de uma loja antes de se tornar impróprio para uso; prazo de validade.

10. RV (recreation vehicles) - veículos como trailers e motor-homes.

11. hobo - Alguém que viaja de lugar a lugar procurando por lares e empregos temporários. Retirado de www.hobotraveler.com/hobo.shtml

Traduzido e revisado por Guilherme Caon em 20/03/2002.

Esta tradução, bem como qualquer uma de suas partes, não pode ser utilizada para nenhum tipo de fim comercial, a não ser com a expressa autorização do tradutor.

fonte: www.rizoma.net